
Quero compartilhar um texto publicado num dos blogs do Estadão com o título acima.
Certamente alguns se verão retratados no texto. Por isso quero dividir o prazer que senti ao lê-lo.
A foto foi colhida no endereço
acessado em 03/06/2010.
O texto foi extraído do blog do Herton Escobar no endereço http://blogs.estadao.com.br/herton-escobar/ acessado em 03/06/2010.
"Hoje vou fugir um pouco do formato básico deste blog para fazer uma reflexão editorial sobre um tema que foi levantado esta semana em meio às chamas que destruíram a coleção de cobras e aranhas do Instituto Butantan (IB).
Em entrevistas à imprensa, o exdiretor do Instituto Butantan (braço privado do IB que faz a gestão financeira do instituto), Isaias Raw, defendeu a priorização da produção de vacinas no instituto e menosprezou as pesquisas feitas com a coleção. Disse que a função do IB era salvar vidas e não "ficar brincando com cobras" e que a ciência feita pelos pesquisadores da coleção era de "quinta categoria".
Logo vieram me perguntar: "Mas e aí, os caras lá são bons mesmo?
Esta pergunta é extremamamente difícil de ser respondida. Em geral, quem tem um bom conhecimento de ciência, olha para um cientista e sabe se ele é bom ou não é. Mas como é que você "prova" isso estatisticamente? Sem conhecer nenhum dos pesquisadores do Butantan pessoalmente, como é que você definiria se eles são cientistas de primeira, de segunda ou de terceira categoria?
Ironicamente, definir um bom cientista cientificamente não é nada fácil. Seja qual for o parâmetro escolhido, alguém sempre acaba injustiçado. Tanto que a definição de mérito para distribuição de bolsas e seleção de projetos é um dos temas mais polêmicos da política científica - não só no Brasil, mas no mundo todo.
Por exemplo: Quem é o melhor cientista, aquele que publica mais, aquele que ensina mais, aquele que patenteia mais, aquele que faz pouca pesquisa mas atrai muitos recursos (financeiros e humanos) para sua instituição...?
E se considerarmos apenas as publicações, quem é o melhor: aquele que publicou 10 trabalhos medianos em 1 ano, ou aquele que publicou 1 trabalho revolucionário em 10 anos? Aquele que só publicou trabalhos medianos certamente não vai ganhar o Prêmio Nobel, mas talvez ele tenha orientado e formado muito mais alunos do que aquele que faz uma descoberta bombástica no mesmo período. E aí?Quem é o melhor cientista? Quem merece ganhar mais dinheiro e ter ar condiconado na sala?
A resposta "correta", claro, é que precisamos de todos os tipos de cientistas. Precisamos de pesquisadores audaciosos, empreendedores, do tipo Craig Venter que buscam descobertas revolucionárias e não perdem tempo com "picuinhas". Precisamos de pesquisadores-professores, inteligentes, que se dediquem a formar jovens cientistas competentes e fazer boas pesquisas, sem se preocupar em necessariamente em ganhar um Prêmio Nobel. Precisamos também de bons cientistas, curadores, educadores, expositores, oradores, escritores, divulgadores, que talvez nunca publicaram um trabalho de impacto, mas que sabem transmitir o conhecimento da ciência para o grande público de maneira inteligente, seja na forma de um livro ou de uma exposição, fazendo com que as pessoas entendam, apoiem e se entusiasmem pela ciência. Etc.
Aos olhos de alguém como o Dr. Isaias, que dedicou sua vida ao estudo e a produção de vacinas, o trabalho de alguém que dedica a vida a descrever espécies de cobra guardadas em vidros com álcool pode parecer totalmente irrelevante. Mas obviamente não é. Claro que a importância da produção de vacinas é inegável, inquestionável, mas as milhares de pessoas que visitam o Instituto Butantan todos os meses não vão lá pra olhar as fábricas de vacinas. Vão lá para ver as cobras e aprender sobre elas! Ou alguém aí já viu uma criança com a cara grudada no vidro e a boca aberta de espanto olhando pela janela de uma fábrica? "Mamãe, olha só aquela linha de produção, que incrível!!!! Tira uma foto? Acho que não.
Pois então: é graças a essas coleções biológicas e graças ao trabalho desses cientistas "de quinta categoria" que conhecemos os nomes, os habitats, e o comportamento de todas essas cobras e aranhas fascinantes. Que graça teria viver cheio de saúde num mundo sobre o qual não conhecemos nada? Ciência não precisa salvar vidas nem ganhar Prêmio Nobel para ser boa. Basta ser boa."
O comentário do cientista do Butantan, seguramente teve grande repercussão. De forma tendenciosa, ele foi muito infeliz nas suas afirmações. Não quero julgá-lo e taxá-lo de mau cientista pelo comentário feito. Apenas considero que ele foi inadequado nas colocações que fez. Mas quem não comete deslizes? Creio que o mais importante é refletirmos sobre as colocações do autor do blog - Herton Escobar. E acrescentaria mais uma coisa: ninguém está sozinho no mundo. Todos dependemos uns dos outros. Não há cientista que possa realizar nada sozinho. Tudo está interligado. De nada adiantaria a produção de vacinas, se não houvesse alguém que identificasse o tipo de cobra suas características na hora de aplicar o antídoto para a picada da cobra. E mais, se não houvesse a cobra, como poderiam os produtores das vacinas colherem a matéria-prima, se esta é o próprio veneno da cobra?
A todos, minhas saudações virtuais.
Alberto Valença.
4 comentários:
Bom início de semana a todos!
Ontem à tarde li o post sobre os eventos ocorridos no Butantã e o posicionamento do Prof. Isaías Raw.
O Prof. Isaías Raw é um dos nomes de maior relevância atual na Bioquímica brasileira, contribuindo de forma inestimável para o desenvolvimento e a internacionalização do trabalho desenvolvido aqui. Qualquer um que tenha frequentado as reuniões da Sociedade Brasileira de Bioquímica Molecular conhece o impacto de seu trabalho.
Por estas mesmas razões, parece-me um contrasenso as afirmações sobre as "coleções em álcool". Qualquer um de nós sabe que muito trabalho foi desenvolvido na fase "macroscópica" da Biologia, especialmente na classificação sistemática de plantas e animais. Este trabalho permitiu aprofundar conhecimentos à medida que o trabalho microscópico e molecular evoluiu.
Hoje é possível uma produção de vacinas em larga escala e em um tempo reduzido (considerem o exemplo da H1N1). Isto se deve a um dedicado trabalho prévio, como classificar o espécime, extrair, purificar e identificar moléculas, reconhecer quais genes estão envolvidos na síntese de proteínas tóxicas (ex., nas peçonhas), montar uma biblioteca genômica e transfectar E. coli. Puxa! Será que tudo isto perdeu a importância comparado ao produto biotecnológico obtido?
Definitivamente, nossa discussão sobre Capra na última 5f de julho pode ser trazida a tona. Espécies que interagem com espécies, seja biologicamente, seja transcendendo o social... Lembram? Assim, penso que cabe um momento de reflexão (e espanto) sobre o que foi dito.
Um abraço,
Ana Maria
Desculpem: Sociedade Brasileira de Bioquímica e Biologia Molecular.
Abs
Ana M
Nossa, de fato me espantou esta colocação! Comentário pra lá de infeliz. Chega a ser absurdo ouvir um comentário deste de um cientista, de tanto peso como disse a profª Ana, uma vez que ele sabe da importância de descobertas para auxílio de outras descobertas, o que é natural, ninguém faz ciência sozinho, como ressaltou Alberto.
Se tem algo que irrita é "picuinha", cada um tem direito de pensar o que quiser, mas menosprezar o trabalho de alguém que é tão necessário quanto o seu, não sei nem qual seria a real razão, já é demais! Vindo de alguém que não fizesse parte do contexto poderia até "compreender", mas vindo de um cientista, chega a entristecer.
Mas... cada indivíduo vê o mundo de uma forma... interpreta de forma mais conveniente a si mesmo... (na pegada Kellyana rsrsrs).
É a opinião dele, não concordo,mas...
Faço minhas as palavras do Herton Escobar: "Ciência não precisa salvar vidas nem ganhar Prêmio Nobel para ser boa. Basta ser boa." E como diria a profª Heloisa, uma andorinha só não faz Ciência! (no caso ela usa interdisciplinaridade rsrs)
Façamos nossa parte! o/
Abs
Iris
De fato, Iris... Mas onde fica nosso lovely Spiro e a abordagem sistêmica de Capra? Com todo respeito à inter, a abordagem integrada intradisciplinar já é um longo e dificultoso processo. Se eu conseguir chegar aí, estou bem servida; se chegar à inter, aí já sou uma menina crescida! rssss
Bj
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